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Indicadores hospitalares como ferramenta de gestão: SindHosp lança jornada SIGA com parceria da ANAHP

Programa une hospitais paulistas em capacitação para o uso de dados assistenciais e financeiros na tomada de decisão

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Programa une hospitais paulistas em capacitação para o uso de dados assistenciais e financeiros na tomada de decisão

 

O auditório da ARCA, na capital paulista, recebeu a a diretora executiva do SindHosp (Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo), Larissa Eloipara abrir o 1º Workshop SIGA, em 24 de fevereiro de 2026. Na plateia, estavam profissionais de qualidade, gestores assistenciais e analistas de dados de grandes redes hospitalares — Amil, Rede Total Care, Rede Américas, Hospital 9 de Julho, Rede D’OR, além de hospitais do interior como São Francisco de Americana e Hospital de Itatiba — que, a partir daquele dia, passariam a integrar uma jornada coletiva de capacitação em indicadores hospitalares coordenada pelo NIC (Núcleo de Inteligência e Conteúdo) do SindHosp.

O SIGA — Sistema de Indicadores para Gestão de Alto Desempenho em Saúde — é o programa desenvolvido pelo SindHosp em parceria com a ANAHP (Associação Nacional de Hospitais Privados) para capacitar instituições de saúde no uso prático de indicadores, com foco em benchmarking e tomada de decisão baseada em dados. O workshop marcou o primeiro encontro presencial da jornada, que ao longo de vários módulos conduzirá as equipes participantes desde os fundamentos conceituais até a alimentação efetiva do SINHA (Sistema de Indicadores Hospitalares da ANAHP).

 

Indicadores hospitalares e subjetividade: a provocação de Ana Maria Malik

 

Ana Maria Malik, professora titular da FGV-EAESP (Fundação Getulio Vargas — Escola de Administração de Empresas de São Paulo) e uma das vozes mais respeitadas da gestão hospitalar brasileira, conduziu a aula magna sob o tema “Dados existem para ser usados”.

Malik citou a definição que obteve da inteligência artificial — “métricas quantitativas ou qualitativas que medem o desempenho, o progresso ou o resultado de processos, projetos e estratégias” — e imediatamente virou o argumento: “Cuidado com o desejo da objetividade”. As pessoas falam: vou fazer quantitativo para ser objetivo. Mas não existe objetividade.Se eu uso o indicador de metros quadrados por leito, eu estou usando o indicador que eu escolhi. Você vai escolher qual é o quantitativo. Você vai escolher o número que é bom. Você vai escolher de que jeito você vai medir. Então, isso é subjetivo.”

Num campo em que dados são frequentemente apresentados como a resposta objetiva para questões complexas, Malik lembrou que a pergunta — e quem a formula — importa tanto quanto o número que aparece na tela. Sobre benchmarking hospitalar, Malik foi enfática num princípio que voltaria à tona em vários momentos do dia: “Tem uma regra quando a gente fala de comparação que eu acho que é a mais importante, que é comparar comparáveis. 

Ela também tocou num ponto sensível para quem trabalha com sistemas de informação hospitalar: a distância entre ter dados e fazer algo com eles. Ter um arsenal de indicadores sem saber o que se quer responder com eles é, na metáfora dela, como acumular ingredientes sem saber a receita. “Se você sai fazendo informações sem saber para que vai usar, você pode estar gastando demais tempo e dinheiro. E aí acaba sendo caro demais para o que é.” Evocou Deming — “cadê a sabedoria que a gente perdeu no conhecimento? Cadê o conhecimento que a gente perdeu na informação?” — e encerrou com uma convocação sem rodeios: “Se você não tem dado para fazer o que quer, você vai começar a colher hoje. Porque se você não começar hoje, daqui a um ano vai continuar sem ter.”

 

Vinte anos de história: como nasceu o sistema de indicadores hospitalares da ANAHP

 

No talk show que se seguiu à aula magna, moderado por Larissa Eloi, Francisco Balestrin — presidente do Conselho de Administração da FESAÚDE (Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo) e do SindHosp — trouxe o histórico que poucos no auditório conheciam em detalhes: a origem do sistema de indicadores que hoje sustenta o SIGA tem mais de 20 anos.

“Esse é um projeto de 2002, 2003, tem mais de 20 anos. Há 20 anos a gente já pensava em indicadores, apesar de tudo”, disse Balestrin, que foi um dos fundadores da ANAHP — criada oficialmente em 11 de setembro de 2001, o mesmo dia em que as torres gêmeas foram destruídas em Nova York. Uma coincidência que ficou marcada na memória de quem estava lá. “Estávamos com 23 hospitais reunidos em Brasília, tentando construir um critério para saber quais eram os melhores hospitais de cada região.”

O relato descreveu as decisões fundadoras que moldaram o SINHA até hoje: a escolha de nunca pedir o indicador calculado, apenas numerador e denominador — “porque as pessoas podem fraudar seus indicadores” —, a contratação da Escola Paulista de Medicina para operar o sistema como terceira parte neutra, e a estruturação progressiva de critérios de elegibilidade que combinavam acreditação hospitalar, reputação regional e perfil de gestão. A lógica era simples e rigorosa ao mesmo tempo: se você calcula por conta, controla o resultado; se você entrega os componentes brutos a um terceiro neutro, o resultado controla você.

Com o tempo, o sistema evoluiu para o que se tornou o Observatório ANAHP, incorporando indicadores de gestão clínica a partir de 2008. “Se você não faz a correlação entre indicadores operacionais, de qualidade e de gestão clínica, você está medindo para quê? O que queremos, no fundo, são resultados assistenciais adequados para os nossos pacientes”, disse Balestrin. A parceria entre SindHosp e ANAHP que deu origem ao SIGA nasceu, como muitas coisas relevantes na saúde, de uma conversa informal. 

Malik retomou a palavra para fechar o talk show com precisão cirúrgica: “O princípio número um da qualidade do Deming é constância de propósitos. Você faz um negócio no qual acredita em 2003. Se precisar mudar um pouquinho, muda. Mas lembra que o propósito é esse.”Tem que ter alguém que queira fazer. O resto vem depois. Tem que querer e ter constância de propósito.”

 

Do conceito à prática: a dinâmica com o Hospital Excelência e Cuidado

 

Depois das apresentações individuais dos participantes — uma rodada que revelou a presença expressiva de profissionais da Rede Total Care/Amil, além de representantes do Hospital 9 de Julho, Rede DOR, Unimed São José dos Campos e hospitais do interior do estado —, a programação ganhou outro ritmo.

Vanessa Tamara Ferreira, gerente do NIC, e Aline Yukimitsu, consultora técnica, conduziram a dinâmica central do workshop: a análise de um caso fictício. O “Hospital Excelência e Cuidado” — hospital geral privado, lucrativo, de alta complexidade, acreditado ONA3 (nível máximo da Organização Nacional de Acreditação) — foi apresentado com seis indicadores em série histórica de 2020 a 2024, cada um acompanhado do benchmark geral do Observatório ANAHP.

Os indicadores assistenciais do caso foram escolhidos a dedo: média de permanência (que caiu de 5,2 para 4,8 dias), taxa de ocupação operacional, mortalidade institucional (reduzida de 3,95% para 2,8%), IPCSL (Infecção Primária de Corrente Sanguínea confirmada Laboratorialmente) por mil pacientes com cateter-dia em UTI adulto, mediana do tempo porta-balão no protocolo de IAM (Infarto Agudo do Miocárdio) — 64 minutos, dentro do protocolo de 90 — e PMR (Prazo Médio de Recebimento), o tempo entre o faturamento e o pagamento efetivo, que piorou de 75 para 92 dias.

Os grupos foram convidados a responder três perguntas: como avaliar o desempenho do hospital com base nesses dados? Os indicadores são suficientes para essa avaliação? Quais critérios seriam relevantes para complementá-la? Após o brunch estratégico, Priscila Rosseto, coordenadora do GT (Grupo de Trabalho) de Qualidade Assistencial do SindHosp, e Evandro Felix, consultor técnico do NIC, conduziram a devolutiva. O ponto de partida foi um alerta metodológico que vale sublinhar: “Estamos falando de um benchmark geral sem ajuste de risco. Essa tem que ser uma clareza inicial para nós. Qualquer análise pressupõe uma análise crítica antes de qualquer comparação.”

 “Indicador tem que servir para a instituição como um todo, não fica guardado na gaveta do gerente”, explicou Evandro Felix.Aline Yukimitsu fechou a devolutiva com uma reflexão sobre o que existe antes de qualquer número aparecer no painel: “As pessoas acham que indicador é só ficar na planilha, mas não é. Tem critério, padronização, registro, mapeamento.

SINHA, BIS e os 250 indicadores: as ferramentas que sustentam a jornada

 

Foi a vez de Keila Amaral, gerente do NEA (Núcleo de Estudos e Análises) da ANAHP, apresentar em detalhes o sistema ao qual o SIGA está integrado. O SINHA reúne hoje 200 hospitais associados ativos e, desde 2019, passou a aceitar hospitais não associados que queiram participar da mensuração padronizada. Outros 170 hospitais públicos, incluindo unidades das Secretarias Estaduais de São Paulo e Rio de Janeiro, já alimentam o sistema.

“A gente quer ser o banco de dados padronizado do país”, disse Amaral. “Quando a gente fala de dados de indústria, tem muita coisa disponível. Quando fala de dados de saúde, já tem mais restrição.” A plataforma reúne mais de 250 indicadores distribuídos em seis dimensões — operacionais, assistenciais, econômico-financeiros, gestão de pessoas, tecnologia e sustentabilidade — e, em 2026, adicionou indicadores oncológicos, reconhecendo que a taxa de ocupação de um hospital oncológico não é comparável à de um hospital geral.

Evandro Felix encerrou a parte técnica com a apresentação das fichas técnicas dos cinco grupos de indicadores que serão trabalhados ao longo da jornada SIGA: (1) taxa de ocupação, média de permanência e índice de giro de leito; (2) mortalidade institucional e operatória; (3) taxa de cesárea e taxa de cirurgia; (4) taxa de atendimentos de UE (Urgência e Emergência) convertidos em internação e taxa de internação via UE; e (5) taxa de pacientes residentes acima de 90 dias. A lógica dos agrupamentos não foi arbitrária — os indicadores de cada grupo se influenciam mutuamente, e entendê-los separadamente, sem ver a trama entre eles, é como ler os capítulos de um livro fora de ordem. No encerramento do dia, a equipe do NIC apresentou o BIS (Boletim Infográfico da Saúde), plataforma desenvolvida pelo próprio núcleo do SindHosp. Diferentemente do SINHA, que trabalha com dados enviados pelos hospitais participantes, o BIS consolida informações de fontes públicas: 19 bases integradas, mais de 1 bilhão de registros no módulo de hospitais e mais de 6 bilhões no módulo de SADT (Serviços de Apoio Diagnóstico e Terapêutico), organizados em indicadores de recursos físicos, operacionais, epidemiológicos e de mercado de saúde suplementar. Em outros termos: é um mapa do sistema de saúde brasileiro construído com dados que já existiam, mas que raramente conversavam entre si. O módulo de clínicas, ainda em desenvolvimento, deve ser lançado em breve, e todos os associados ao SindHosp têm acesso à plataforma pelo portal sindihosp.org.br.

As inscrições para associados do SindHosp e da FESAÚDE estão abertas, e o próximo workshop está programado para 26 de março..

 

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