A oitava edição do Fórum Brasil-Saúde, realizada na quarta-feira, 20 de maio, durante a Hospitalar 2026, teve como eixo central a necessidade de ampliar a cooperação entre SUS e saúde privada diante da pressão crescente sobre o sistema de saúde brasileiro. Promovido pela FESAÚDE, SindHosp e pela CNSaúde, o encontro teve como tema “Saúde no Brasil em Transformação: Inteligência para Decidir o Futuro” e reuniu representantes do governo federal, lideranças do setor e executivos da saúde para discutir sustentabilidade, assistência especializada, transformação digital e os desafios de reorganização da assistência em um cenário marcado pelo envelhecimento populacional, avanço das doenças crônicas e restrições fiscais.
Na abertura do evento, o presidente do Conselho de Administração do SindHosp e da FESAÚDE, Francisco Balestrin, afirmou que a saúde passa por mudanças estruturais impulsionadas por fatores demográficos, tecnológicos e econômicos que já alteram a forma como o cuidado é organizado e prestado no país. Ao abordar o conceito de “inteligência para decidir o futuro”, Balestrin afirmou: “Precisamos transformar informação em conhecimento, conhecimento em estratégia e estratégia em impacto real para pacientes, profissionais, instituições e para a sustentabilidade do sistema de saúde”.
O dirigente também chamou atenção para o peso político da saúde no debate público. Segundo ele, embora a área permaneça entre as principais preocupações da população brasileira, o tema frequentemente perde espaço na agenda política depois dos períodos eleitorais. O presidente da CNSaúde, Breno Monteiro, destacou, durante a abertura, a importância do Fórum como espaço de articulação institucional e de construção de soluções para os desafios enfrentados pelo setor.
Debates
A primeira palestra do evento foi proferida pela diretora do Departamento de Cooperação Técnica, Inovação e Desenvolvimento em Saúde do Ministério da Saúde, Aline de Oliveira Costa. Ela apresentou iniciativas ligadas à ampliação da atenção especializada, interoperabilidade de dados, telessaúde, modernização hospitalar e melhor aproveitamento da estrutura já existente.
Na sequência, foi debatido o papel político-institucional da saúde privada. O debate girou em torno da necessidade de ampliar a cooperação entre SUS e setor privado para enfrentar gargalos assistenciais históricos, reduzir filas e ampliar a oferta de atendimento. Aline de Oliveira Costa afirmou que a estratégia atual do governo federal passa pelo aproveitamento da capacidade já instalada do setor privado para ampliar atendimentos especializados e acelerar respostas assistenciais. Entre os mecanismos apresentados estão modelos de contratualização regionalizados, uso da capacidade ociosa hospitalar e conversão de passivos tributários em prestação de serviços ao SUS.
Outro tema que ganhou espaço durante o Fórum foi o foco crescente nos hospitais dentro das estratégias atuais de reorganização do sistema. Francisco Balestrin chamou atenção para o peso que a assistência hospitalar ocupou nas propostas que vêm sendo apresentadas pelo Ministério da Saúde: “Muito se fala sobre hospital inteligente, hospital estruturado e recursos concentrados em assistência especializada”, afirmou.
A observação do presidente da FESAÚDE e do SindHosp retomou uma discussão tradicional da saúde pública brasileira, construída ao longo de décadas, em torno da ideia de que a atenção básica deveria funcionar como principal eixo organizador do sistema, deixando a assistência hospitalar como etapa final da linha de cuidado. O envelhecimento da população, o aumento das doenças crônicas e a demanda reprimida deixada pela pandemia da Covid-19, porém, ampliaram a pressão sobre hospitais e serviços especializados. Esses fatores vêm exigindo uma reorganização da rede assistencial e a ampliação da capacidade de atendimento.

Dados e transformação digital
O debate também abordou transformação digital, interoperabilidade de dados, Inteligência Artificial (IA) e modernização hospitalar como ferramentas importantes para melhorar a gestão dos serviços, a eficiência operacional e reduzir erros assistenciais.
Representantes do governo federal e lideranças da saúde privada que participaram do Fórum convergiram na avaliação de que o sistema de saúde brasileiro exigirá, nos próximos anos, modelos mais integrados e sustentáveis para responder ao crescimento da demanda assistencial e às limitações fiscais enfrentadas pelo setor.
Ao longo das discussões, a integração entre SUS e setor privado deixou de aparecer como solução emergencial e passou a ocupar espaço estratégico nas discussões sobre acesso, financiamento e reorganização da assistência.
Sustentabilidade econômica
Durante o painel “Sustentabilidade Econômica do Setor, a conta fecha?”, representantes da saúde suplementar, hospitais e entidades filantrópicas expuseram uma preocupação comum: o modelo atual já dá sinais claros de esgotamento financeiro. Paralelamente, a ampliação do número de beneficiários da saúde suplementar, que pode reduzir a pressão sobre o SUS, está diretamente atrelada ao desempenho econômico do país e à renda da população brasileira.
Os participantes do painel defenderam que o debate sobre equilíbrio econômico da saúde precisa ir além da discussão sobre preços e reajustes e passar a abordar temas como produtividade, desperdício, integração de dados e formas de remuneração. A interoperabilidade de dados foi apontada como uma das ferramentas mais importantes para melhorar a eficiência e ampliar a coordenação do cuidado.
O painel sobre sustentabilidade econômica terminou com uma percepção comum entre os debatedores: os conflitos históricos entre operadoras e prestadores já não conseguem responder sozinhos aos problemas de financiamento, eficiência e acesso. Para os participantes, a sustentabilidade do sistema dependerá cada vez mais de integração de dados, revisão dos modelos de remuneração e maior coordenação entre os diferentes atores do setor.
Fragmentação de dados
O talk show “Inteligência Setorial de Dados e Informação de Saúde como Diferencial” discutiu interoperabilidade, IA e os desafios para transformar dados em decisões mais eficientes no setor de saúde. Dados existem aos milhões na saúde brasileira, mas boa parte ainda segue fragmentada, desconectada e é pouco aproveitada nas decisões clínicas durante a jornada do paciente.
Algumas iniciativas do Ministério da Saúde sobre governança, maturidade digital e compartilhamento de dados no SUS foram destacadas, assim como movimentações do setor privado para criação de projetos-piloto de integração entre instituições. No debate ficou claro que interoperabilidade deixou de ser uma pauta tecnológica e passou a envolver gestão, segurança da informação, padronização de indicadores e capacidade de transformar registros em decisões práticas.
Para os debatedores, a saúde vive uma mudança importante impulsionada pela evolução da IA e pelo aumento da capacidade computacional. Ferramentas capazes de analisar simultaneamente imagens, exames e informações clínicas começam a abrir espaço para uma assistência mais personalizada e preditiva.
Encerramento
A palestra de encerramento do Fórum Brasil-Saúde discutiu a crise de confiança na saúde suplementar, desafios regulatórios, integração entre os diferentes atores e a necessidade de fortalecer modelos de cuidado mais coordenados e sustentáveis. A diretora interina de Gestão da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), Carla de Figueiredo Soares, acredita que as operadoras precisam avançar no papel de organização da jornada assistencial dos pacientes e não atuar apenas como intermediadoras financeiras. Ela também chamou atenção para dificuldades enfrentadas pelos próprios beneficiários na navegação entre consultas, exames, encaminhamentos e tratamentos dentro do sistema de saúde suplementar.
O VIII Fórum Brasil-Saúde 2026 reforçou um ponto que atravessou os diferentes painéis ao longo do evento: sustentabilidade na saúde depende de coordenação, confiança e capacidade de integração entre os diversos atores do sistema. Em meio ao aumento dos custos, à pressão assistencial e às mudanças regulatórias, lideranças do setor defenderam maior aproximação entre operadoras, hospitais, prestadores e órgãos públicos para enfrentar desafios que deixaram de ser isolados e passaram a afetar toda a cadeia da saúde.
A próxima edição da revista Saúde 360 terá matéria completa sobre o VII Fórum Brasil-Saúde. Acesse aqui a última edição da revista.





