Paciente no centro: ‘Papo da Saúde’ trata dos desafios da acreditação no Brasil

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O médico e administrador de empresas Rubens Covello defende que a busca por excelência depende de uma premissa básica quando se fala em saúde. Para o sócio-fundador e CEO da Quality Global Alliance (QGA) e um dos principais responsáveis pela consolidação de programas de acreditação de hospitais no Brasil e na América Latina, é preciso que os gestores de instituições de saúde coloquem “o paciente no centro” de suas decisões estratégicas. Ele foi o convidado do presidente do SindHosp, Francisco Balestrin, na estreia da segunda temporada do videocast “Papo da Saúde”, e falou sobre sua trajetória de quase três décadas no desenvolvimento de processos e metodologias capazes de garantir qualidade e segurança na assistência médica, área em que é referência nacional e internacional. A íntegra do bate-papo, que aconteceu na sede do SindHosp, está disponível no canal do Youtube do Sindicato. Clique aqui e acesse a íntegra do programa

Formado em 1982 pela Faculdade de Medicina de Catanduva, Rubens Covello se tornou geriatra antes de migrar para a área de Administração Hospitalar e dirigir um hospital público, em São Paulo. Também cursou pós-graduação em Administração, o que o conduziu para o mundo da acreditação. “Eu era o único médico do curso e todos me perguntavam muita coisa sobre a área da saúde. Duas questões me chamaram particularmente a atenção. Na época, nos anos 1990, não havia dentro das instituições de saúde a gestão de pessoas, ou seja, uma política de recursos humanos, nem, tampouco, a preocupação que temos hoje com qualidade, que era confundida com a técnica, o médico, os profissionais – e qualidade não é isso”, esclareceu Covello. “Isso me fez refletir e pesquisar modelos dentro e fora do Brasil. Meu objetivo era inserir processos de qualidade e segurança nas instituições de saúde”.

Metodologia ONA

O que se seguiu ao insight de Rubens Covello no curso de pós-graduação a comunidade de saúde conhece bem. Nas palavras de Francisco Balestrin, ele se tornou uma das figuras mais notórias do país, sobretudo no setor hospitalar: “Como empreendedor que é, o Rubens introduziu no Brasil a acreditação na área de saúde, sempre com muita resiliência”. Atento ao que acontecia no Canadá, nos Estados Unidos e na Europa, Covello já falava de acreditação antes mesmo da criação da Organização Nacional de Acreditação (ONA), em julho de 1999. Segundo a ONA, “a acreditação é um método de avaliação e certificação que busca, por meio de padrões e requisitos previamente definidos, promover a qualidade e a segurança da assistência no setor de saúde”.

Covello gosta de dizer que tem um mapa das instituições de saúde desde 1999/2000, quando começou a aplicar a metodologia ONA. “Eu sou um fotógrafo do sistema de saúde. Meus auditores e eu entramos nos estabelecimentos de saúde tirando fotos de lugares, retratando diferentes aspectos do todo”, ilustrou o médico no bate-papo com Balestrin. “Na época, eu não queria ficar restrito à concepção das normas, eu queria ir para o ‘chão da fábrica’. Então, criamos a IQG (Instituto Qualisa de Gestão), que até hoje trabalha pela acreditação de instituições de saúde com base na metodologia ONA. São três níveis de certificação ONA, o Nível 1, voltado para segurança e legislação; o Nível 2, que privilegia processos; e o Nível 3, de excelência, que trabalha com indicador de desfecho. O Brasil é pioneiro nessa gradação”, explicou Rubens Covello.

Aliança global e sinistralidade

O médico diz que, durante muito tempo, as instituições de saúde procuravam uma certificação como uma peça de marketing e recebiam de presente uma ferramenta de gestão. “Nesse desenho de três níveis, ajudamos a transformar o sistema de saúde do Brasil, pelo menos até que os hospitais começassem a atingir o último nível e nos pedissem suporte para garantir uma melhoria contínua. Foi quando criamos a aliança global, a QGA, que tem nove países-membros e 120 padrões de qualidade”, revelou o sócio-fundador da QGA. “A aliança trabalha com a metodologia QMentum Internacional, concebida no Canadá, que é o maior programa de acreditação do mundo, com 16 mil serviços acreditados em 36 países”.

Apesar dos avanços na área de acreditação, o desafio do Brasil é muito grande. Segundo Rubens Covello, apenas 6,8% dos mais de seis mil hospitais do país têm certificação. “Isso me deixa chateado. É um número extremamente baixo. Em países como Canadá, Dinamarca, Holanda e Catar, 100% dos hospitais são acreditados”, revelou o convidado do Papo da Saúde do SindHosp. Provocado por Balestrin se acha que as acreditações deveriam ser obrigatórias, Covello respondeu que não, por causa de experiências negativas desse modelo em outros países. “O programa de acreditação precisa ser voluntário, sigiloso e periódico. Defendo que se trabalhe o conceito já na universidade, inserindo a questão da segurança do paciente e da qualidade assistencial na academia. Também acredito que as operadoras de planos de saúde, que pagam pelos serviços, exijam a acreditação de instituições de saúde, o que vai garantir uma redução da sinistralidade”, defendeu o médico.

A experiência do paciente

Para Rubens Covello, é importante que a comunidade de saúde pense na qualidade da assistência do paciente, avaliando como esse paciente entra ou sai do sistema, de como é essa linha de cuidado. Ele diz que as instituições acreditadas maduras pensam, por exemplo, na questão do acesso, em tomadas de decisões baseadas em princípios éticos e no compliance. “É olhar a sinistralidade pensando na pessoa, o paciente, na vida que tem ali. Dessa maneira, ele vai diminuir a sinistralidade. De outro modo, não vai conseguir. Quando o paciente ingressa pela entrada certa, passa por uma linha de cuidado adequada e tem a alta correta e, com certeza, o custo desse paciente é muito menor. Por isso, de alguma maneira, a instituição que faz isso deve ser remunerada. É preciso pensar em rentabilidade do sistema e não em faturamento do sistema”.

Para o especialista, as instituições de saúde precisam colocar foco no paciente, na experiência do paciente, na qualidade de vida do colaborador, atentas a questões como estresse, Síndrome de Burnout e suicídio. “Evoluímos muito em décadas. Hoje, não nos preocupamos com estrutura física em si. Nos preocupamos com processos que garantam a segurança”, elucidou Covello. “No fim, precisamos de instituições ativas e atentas, para evitar infecções hospitalares, maus processos, desvios e outras práticas por falta de qualidade. Evitar, como já vi acontecer, de um cirurgião operar o joelho errado de um paciente”.

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