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O que falta para a interoperabilidade deixar de ser exceção no Brasil

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O Brasil produz um volume gigantesco de dados em saúde todos os dias. O problema é que essas informações, em grande parte, seguem isoladas. Entre hospitais, laboratórios, operadoras e sistemas público e privado, transformar dados em cuidado coordenado ainda é um desafio enorme.

Esse tema esteve no centro das discussões da Arena da Saúde no primeiro dia da Hospitalar 2026, em 19 de maio. O espaço, promovido pela FESAÚDE e pelo SindHosp, reuniu Ana Estela Haddad, secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, e Giovanni Guido Cerri, presidente do Conselho de Administração do Instituto Coalizão Saúde (ICOS), para discutir interoperabilidade na saúde e integração de dados no Brasil. A conversa foi conduzida por Francisco Balestrin, presidente do SindHosp e da FESAÚDE, e passou pelos entraves técnicos, pelas barreiras culturais e pela preocupação sobre como garantir que os avanços atuais sobrevivam às mudanças de governo.

 

O desafio da interoperabilidade

Logo na abertura, Balestrin chamou atenção para um paradoxo do sistema de saúde brasileiro. O país possui algumas das maiores bases públicas de dados em saúde do mundo, incluindo o DataSUS, o TISS (Troca de Informações em Saúde Suplementar) e a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), em rápida expansão. Mesmo assim, os sistemas continuam fragmentados e pouco integrados.

Para o presidente do SindHosp e da FESAÚDE, a discussão vai além da tecnologia. A questão central é entender quando os dados em saúde passarão a ser tratados como infraestrutura estratégica de Estado, com governança contínua e visão de longo prazo.

O histórico da digitalização da saúde ajuda a explicar esse cenário. Desde os anos 1990, o SUS acumulou mais de 400 sistemas diferentes, criados em períodos distintos e com arquiteturas variadas. O resultado é uma rede complexa, formada por bases que muitas vezes não conseguem se comunicar de forma eficiente.

Durante o debate, Ana Estela afirmou que a criação da Secretaria de Informação e Saúde Digital mudou a forma como o governo federal passou a tratar o tema. Segundo ela, o foco agora está em acompanhar todo o ciclo das informações em saúde, desde o registro até a transformação desses dados em inteligência para a gestão e assistência. A secretária lembrou que o país ainda utiliza menos de 10% das informações que produz diariamente.

 

RNDS e inteligência artificial

Nesse contexto, a RNDS surgiu no debate como uma tentativa de criar interoperabilidade em escala nacional. A proposta é estabelecer padrões mínimos para o compartilhamento seguro de informações clínicas entre diferentes instituições e sistemas.

Os números ajudam a dimensionar esse avanço. Em 2023, a rede reunia 700 milhões de registros. Hoje, já soma 4,6 bilhões, crescimento superior a 400% em três anos. A plataforma também verifica a consistência dos registros, cruza dados com o CADSUS e estabelece mecanismos de integridade das informações. Quando há inconsistência, o dado é rejeitado.

Ana Estela também destacou avanços na articulação entre os setores. A RNDS já recebe informações da ANS via TISS e mantém parceria com o InovaHC, núcleo de inovação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo. Segundo a secretária, se essa integração avançar, será possível reconstruir a trajetória completa do paciente, independentemente de o atendimento ter acontecido no SUS ou na saúde suplementar.

A conversa ganhou um olhar mais assistencial na fala de Giovanni Guido Cerri. Para o médico e professor, a interoperabilidade deixou de ser apenas um tema técnico e passou a ocupar um espaço estratégico na sustentabilidade do sistema de saúde. Repetição de exames, desperdícios assistenciais e falhas na coordenação do cuidado estão diretamente ligados à fragmentação das informações.

Cerri também afirmou que a chegada da inteligência artificial mudou a capacidade de análise das informações em saúde. Como exemplo, citou o trabalho em andamento no HC para construção de um data lake, estrutura centralizada que reúne informações de diferentes origens em uma única base de dados. A proposta é integrar registros hoje dispersos entre radiologia, laboratório e outras áreas para apoiar o planejamento terapêutico dos pacientes.

 

Radiômica e medicina preditiva

Um dos exemplos apresentados durante a conversa foi o avanço da radiômica, área que utiliza inteligência artificial para identificar padrões invisíveis ao olhar humano em exames de imagem. Estudos recentes já apontam a possibilidade de detectar alterações relacionadas ao câncer de pâncreas antes mesmo de manifestações clínicas evidentes.

Segundo Cerri, esse avanço abre espaço para uma medicina mais preditiva e personalizada, capaz de integrar exames de imagem, genética, testes laboratoriais e histórico clínico para antecipar doenças e individualizar tratamentos. Foi nesse contexto que ele mencionou o conceito de teranóstico, abordagem que combina diagnóstico por imagem e tratamento dentro do mesmo protocolo terapêutico, especialmente na oncologia.

Apesar dos avanços tecnológicos, os participantes reconheceram que as maiores barreiras talvez não sejam técnicas. Parte da resistência ainda está ligada à cultura institucional de retenção de informações. Hospitais, operadoras, laboratórios e até profissionais de saúde historicamente trataram esses registros como patrimônio próprio, dificultando o compartilhamento entre sistemas.

Para Cerri, essa lógica começou a mudar nos últimos anos. O especialista comparou o cenário ao sistema financeiro brasileiro, que conseguiu estruturar mecanismos seguros de compartilhamento de informações sem comprometer a competitividade das instituições. Segundo ele, cada organização pode manter seus próprios dados e compartilhar apenas o necessário.

 

Governança e soberania de dados na saúde

Os debatedores também destacaram que o futuro da interoperabilidade no Brasil depende de governança. Ana Estela distinguiu três dimensões que precisam avançar simultaneamente: soberania de dados, soberania operacional e soberania tecnológica. Segundo a secretária, essa última ainda representa o maior desafio, principalmente por envolver infraestrutura de data centers e capacidade nacional para aplicação de inteligência artificial.

No campo regulatório, o avanço mais recente foi o Decreto 12.560/2025, que estabeleceu princípios como soberania digital e compartilhamento de informações orientado exclusivamente pelo interesse do paciente. Ana Estela afirmou que o próximo passo já está em andamento: um projeto de lei mais amplo, com audiência pública já agendada na Comissão de Saúde da Câmara, conduzida pela deputada Adriana Ventura, com participação da deputada Jandira Feghali, autora da proposta apresentada na Comissão de Ciência e Tecnologia.

Na parte final do debate, Balestrin lançou uma pergunta direta: o que precisa acontecer nos próximos dois anos para que a interoperabilidade da saúde no Brasil se torne irreversível, independentemente de quem esteja no governo a partir de 2027?

Ana Estela respondeu que ainda não existe uma resposta pronta para essa questão. Segundo ela, o receio está no risco de uma lógica privatista para os dados de saúde desmontar o consenso construído até aqui. Para a secretária, o modelo ideal precisaria equilibrar presença do setor público, evitar concentração excessiva de poder e limitar interesses privados que possam se sobrepor ao interesse coletivo. Cerri concordou que o debate ainda permanece aberto.

Ao final do encontro, ficou claro que a interoperabilidade deixou de ser um tema restrito aos especialistas em tecnologia. A discussão passou a ocupar um espaço central nas conversas sobre assistência, gestão hospitalar e sustentabilidade econômica da saúde brasileira.

A discussão integra a programação da Arena da Saúde, que segue ao longo da Hospitalar 2026 debatendo temas ligados ao setor. Clique aqui e conheça a programação.

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